Por Ana Viana
O diretor canadense, Denys Arcand, da continuidade do até então melhor filme de sua carreira, “O declínio do Império americano”, com o premiadíssimo “As Invasões Bárabaras. Os personagens são os mesmos, retratados quinze anos após o primeiro longa, onde cada personagem apresenta um destino bem provável através de um retrato ficional intercalado com o estilo documentário, traduzindo-se em um longa realista e comovente. Pertinente assistir a primeira história, para poder compreender cada personagem e a situação que cada um vive tempos depois, porém a continuação basta-se sozinha, sendo desnecessário a obrigatoriedade de assistir o “Declínio”.
O longa discorre sobre a história de Rémy, professor de história de uma universidade, que está em estágio de câncer terminal. Sua ex-mulher comunica aos seus filhos a respeito da situação do pai, e seu filho, Sebastién, um bem sucedido capitalista linear que trabalha na bolsa de valores de Londres, abandona a cidade e vai de encontro ao pai, que se encontra em um hospital público no Quebec. Porém, pai e filho não se comunicam há anos, tendo uma relação extremamente conturbada, onde pai tem suas ideologias idealistas e filho um garoto pragmático e previsível, justamente tudo aquilo que o pai repudiou a vida inteira.
Logo de início os dois já brigam e a situação parece se dar inconcebível. Porém, o filho, a sua maneira de demonstrar carinho, com todas as regalias que o dinheiro pode lhe oferecer, usufrui de cada centavo para satisfazer as vontades do pai e lhe dar uma despedida decente, mas sem mostrar nenhum gesto afetivo. Transfere seu pai para o andar debaixo do hospital, onde cuidadosamente reforma de maneira a ficar agradável, chama os amigos antigos do pai para passar os últimos momentos ao seu lado (entre eles suas amantes), consegue emprestado a casa de campo de um dos amigos do pai e ainda com a ajuda da filha junkie de uma das amantes, compra heroína para aliviar a dor dos últimos momentos, pois segundo um médico amigo de Sebastién, a droga era utilizada em teste com pacientes terminais. Não se questiona o uso ou não da substância e sua alusão não tem questão analítica.
Assim, utilizando de vários recursos aparentemente inesgotáveis, Sebastién compra para o pai a ilusão que ele gostaria de viver, conforme sua ideologia. Até seus alunos, que pareciam a Rémy, não se importarem com a sua internação, fato o que o deixou chateado, aparecem para saudá-lo no hospital. Rémy fica contente com esse gesto, porém, mal ele sabe que seus alunos foram comprados por seu filho, a fim de lhe dar todo aquele sonho que ele acredita. Uma leitura que pode ser feita da intenção do diretor é de mostrar ao espectador de que tudo aquilo é um sonho realmente, uma utopia,que na atualidade tudo gira em torno do dinheiro, que conversas ideológicas e movimentos sociais ficaram no passado, vivem no passado e não passam de pura sombra de um momento que hoje não existe mais. Arcand mostra que hoje tudo é movido através do dinheiro, que a sensibilidade não existe e que os interesses são puro monetários.
Quando Rémy lhe pergunta a sua nora se ama seu filho ela lhe responde: “Amor, sempre escutei o que era o amor, e anos depois meus pais se separaram. Não quero dar isso aos meus filhos”. Quem sabe mais consciente a menina sem expectativas de ilusões amorosas, do tal amor sem fim, daquele amor que é muito bonito nas telas porém difícil de manter na vida real. Tudo isso mostra o reflexo de uma geração que brincava de amar, sem saber o que é esse sentimento, confundindo paixão e amor, sendo completamente egoístas e individualistas, se preocupando mais com o bem a si mesmo do que pensar no bem das pessoas ao seu lado. Rémy era um desses casos. Típico idealista, intelectual, falava bem, comia bem, tinha uma família e filhos e vibrou a vida inteira por amar varias mulheres, não escapando nem as amigas da sua ate então mulher. A vidinha simples e rotineira é muito cafona, a vida é muito mais prazerosa quando vive-se os sentidos e ama-se loucamente. Além de tudo isso vale passar por todos os movimentos, desde o comunismo ao taoísmo, tudo isso mostrando ser um “intelectual”,uma pessoa a frente do tempo, mas tão a frente do tempo que acaba só, internado em um hospital, tendo pessoas comprados para dizer que lhe amam. Onde esrtá todo aquele sonho de Rémy? Um Rémy que ao chegar a beira da morte chora por não entender qual o sentido da vida, um indivíduo que não sabe para que veio e teme a morte ao deparar-se com ela. Remý morre sem tranqüilidade e sem ter encontrado um sentido para sua vida.
Os ideais pensados por Rémy e seus amigos, são revisados de forma cínica e realista. Arcand questiona a geração de 60 e seus ideais, os libertários, os da amizade, além de questionar a finalidade da religião,onde ilustra durante uma passagem onde todos os santos e esculturas católicas não possuem nenhum valor “monetário”. Pode-se fazer uma leitura da decadência das religiões e da desvalorização da crença.
Sebastién ao mesmo tempo que cuida da morte do pai trabalha por meio de seu telefone, talvez uma tentativa do diretor de mostrar que o moço não se deixa abater com o que esta passando, traduzindo a primeira vista em uma pessoa sem sentimentos e fria, em um outro olhar pode-se dizer que a vida o tenha ensinado a ser mais racional que sentimental. Talvez o único momento de afetividade de Sebastién se encontre no momento da despedida com seu pai e no pequeno flerte com a junkie girl, Nathalie. A moça, por ter sido o anjo da morte de Rémy, a pessoa que lhe levou ao outro lado e assumidamente a única que realmente ficou sentida com a morte de Rémy, acaba presenteada com a casa de Rémy e seus milhares de livros. Para os outros parecia uma despedida, um tchau, ta, acabou é isso. Agora volta-se a trabalhar e a cada uma vai viver sua vida. Nathalie, sem muitas explicações resolveu abandonar sua vida de vícios e tentar ter uma ivida normal, obviamente que essa menina tinha uma relação conturbada com a mãe, uma mulher promiscua que desde jovem levava milhares de homens em sua cama, na frente da menina, sem esconder e sem sentir o menor remorso. Como de se esperar, continua na mesma, com seus amantes acompanhando sua cama e indo embota ao amanhecer. Uma vida leviana na qual deixou uma filha sem crença e desacreditada tendo que se refugiar na droga.
Pode-se encontrar algumas pessoas que fogem do padrão niilista, como o caso da mocinha que não aceita o dinheiro de Sebastién quando se sente sensibilizada com a eminente morte de seu professor. Também é ilustrado na personagem da enfermeira que diz a Rémy que a única coisa que ele precisa é ter fé, dando a mostrar que mesmo que a religião seja desacreditada, no sentido individual a fé ainda esta lá, presente no ser humano, por mais esquecido que esteja. Toca a ela ser a pessoa responsável por mostrar tanto para o pai e para o filho sobre seus sentimentos. Primeiro diz a Rémy que nenhum filho veio de lugar nenhum para se despedir e ver o pai, que o caso de Sebastién era algo raro, e sim era demonstração do amor do filho pelo pai. Também ela diz a Sebastién no momento antes de sua despedida com o pai, que o diga que lhe ama, que esse gesto, aparentemente sem valor, é de extrema importância e capaz de deixar Rémy realizado.
